quarta-feira, 9 de junho de 2010

ALEJANDRO: O PODEROSO E INCOMPREENDIDO

E ontem mesmo foi lançado o vídeo do novo sucesso de Lady Gaga, “Alejandro”. A música já vinha recebendo destaque, mas hoje foi o fim da picada, à meia-noite, ter quase meio milhão de acessos no Youtube. Muitas opiniões divergem sobre o teor do vídeo, mas há um consenso, mesmo que não admitido por parte de quem odiou o clipe, que Gaga sabe mesmo como chamar a atenção.

É praticamente inviável comentar a música sem falar um pouco de Lady Gaga enquanto artista. Boa parte da crítica deve discordar de mim, e uma parte assinaria embaixo. Gaga hoje, em minha opinião é o sinônimo para dois termos: gênio musical e rainha do pop. Ela não é “meramente” diva-freak-melancia-no-pescoço. Ela não é “apenas” mais uma performer.

Gostaria apenas de lembrá-los que o campo do meu conhecimento mais amplo e o do meu gosto mesmo é o metal e suas vertentes.


Sim, caro leitor, você está lendo uma crítica de um vídeo da Lady Gaga escrito por uma headbanger. E eu consigo dizer no melhor estilo twitter que Gaga é “troo”.

Ninguém aqui está dizendo que ela é totalmente original. Mas a originalidade dela está em assumir suas influências, em expressar-se sem medo de censura, em ser na sua essência uma verdadeira artista. Ela não é nem um pouco modesta quando fala de si e de suas idéias, mas a forma gentil, pausada e de voz mansa com a qual ela fala deixa qualquer um sem palavras, a saber: de MTV à Oprah e Larry King. Ou se quiser ir mais longe, cito a Rainha Mãe, porque até mesmo ela rendeu-se ao poder de Lady Gaga.


Uma artista totalmente calculada, Gaga admite isso nas suas entrevistas e, pessoalmente, eu acho brilhante. Ela atinge seu público-alvo e ultrapassa os limites, sendo extremamente popular entre as massas. Isso porque, como eu disse lá no começo, ela sabe como chamar a atenção: seus fãs fiéis, que compreendem sua forma de arte, acham absolutamente brilhante, conseguem interpretar cada letra e vídeo de maneira profunda. Os populares acreditam que sua extravagância é pelo menos interessante e os tira do marasmo do dia-a-dia, nem que seja para chocar-se com oito minutos de “Alejandro”.




UMA ANÁLISE BREVE DO VÍDEO “ALEJANDRO”


Como Lady Gaga é uma artista completa (escreve suas músicas, desenha seu figurino, dirige seus próprios vídeos, e todas as grandes performances são idéias da sua própria cabeça), é claro que ela deixa boa parte de sua mensagem para o visual.

Mas o clipe de “Alejandro” deve ser visto acompanhado do entendimento básico sobre a letra. A música é dirigida e uma espécie de lembrança ao público gay.

E há várias formas de encarar o tal Alejandro. Após alguma energia gasta nessa reflexão, eu digo que minha interpretação favorita de Alejandro é que ele representa a figura da homossexualidade, implorando para ser assumida de alguma forma. A primeira pessoa da narração então é um “reprimido”, alguém que não o pode assumir em público com medo “dela” – a censura, a repressão, a violência da sociedade que ainda não aceita a homossexualidade com mais naturalidade, e sim a tolera apenas. Sim, é preciso desconstruir de maneira apropriada para entender a música. Faça o exercício e você encontrará várias outras formas de interpretar a música, mas a mensagem final será a mesma.


Para o vídeo, é redundante dizer – porque isso é explícito – que Gaga faz uso da influência que sofreu de Madonna (a atmosfera da música mesmo lembra “La Isla Bonita”). A maquiagem, os cabelos curtos, o batom vermelho marcado, a forma tranqüila do semblante ao cantar. Referências à igreja, o terço, bem no melhor estilo de “La Isla Bonita”. Alguns toques de MJ também são perceptíveis como o uso de marcha dos soldados.

Mas o que muitos em menos de 24 horas de vídeo no ar disseram sobre “não entender” a mensagem, aí me desculpe, é pura preguiça. Uma vez compreendida a letra, o resto fica fácil: a igreja católica ainda hoje é uma das maiores forças contra a homossexualidade. A referência a “soldados” é óbvia sobre o preconceito dentro de qualquer exército.

O elemento “sado masoquista” do vídeo fala da repressão ao homossexualismo, além de evidenciar uma das muitas formas de se fazer sexo. Homens todos iguais, de salto alto, na cama... Fantasias reprimidas! O conceito é amplo.

A fotografia faz o vídeo ficar especialmente dramático. As sobrancelhas de Gaga loiras, dando essa forma mais andrógena ao rosto, dão mais valor ainda ao vídeo. Ela é jogada numa roda de homens iguais, mesmo corte de cabelo, representa a massa que joga o “problema” da homossexualidade para os outros e uns contra os outros. E digo mais: quem tem um preconceito com ela por fazer bem ao público GLS, pense duas vezes.

Porque sangue de Lady Gaga tem poder! E lá vem a Igreja e os moralistas censurando o vídeo em 5, 4, 3... Com vocês, ALEJANDRO... Oh, Alejandro!



Para conhecer a letra e a tradução de "Alejandro", clique aqui.

4 comentários:

gabe disse...

de todas as criticas, e compreensões a sua foi a mais completa e a que mais bateu com a minha
parabéns adorei sua visão que de tão ampla e sutil fica gostosa de ler (:

Gisele Santos disse...

eu tava lembrando do clipe da madonna, like a virgin, foi super criticado naquela época, imagina esse

Michele disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Michele disse...

De fato a Lady Gaga quer mesmo é chocar, só que apesar de ter gostado muito do clipe, todos os elementos mostrados, como vc mesma Juliana disse, tem referências Madonnicas e, ao menos pra mim, me fez perder um pouco do choque. Logo na primeira vez que assisti fiquei pensando: isso eu vi nesse clipe, isso eu já vi em outro, etc. Não que isso diminua o trabalho de Gaga, de modo algum, mas provavelmente o clipe atinja de forma mais chocante a nova geração, essa que está vendo tudo isso pela primeira vez.

Enfim, ótima matéria Juliana, parabéns mesmo!